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BAYER
EM BELFORD ROXO: Um acidente que não deve ser esquecido
Por Elizabeth
Oliveira
O acidente ocorrido nas instalações da Bayer CropScience,
em Belford Roxo (Baixada Fluminense), no dia 16 de janeiro
último, ao que tudo indica não cairá no esquecimento facilmente.
A explosão de um tanque contendo o agrotóxico Tamaron foi
controlada pela multinacional, mas as reações da sociedade
continuam se multiplicando. A primeira delas foi uma representação
junto ao Ministério Público Estadual e à Procuradoria da
República do Rio de Janeiro, encaminhada pelo Fórum de Meio
Ambiente e Qualidade de Vida da Baía de Sepetiba e da Zona
Oeste, organização que já teve pedido de abertura de inquérito
atendido para apurar as causas e conseqüências da explosão.
Ambientalistas e moradores da cidade estão organizando um
abaixo-assinado, reforçando a demanda de investigação apresentada
pelo Fórum, enquanto a Comissão de Meio Ambiente da Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) pretende convocar
a empresa a depor em uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI), recém-protocolada, para apurar os Crimes Ambientais
registrados no Estado nos últimos oito anos.
O ambientalista e coordenador do Fórum, Sérgio Ricardo de
Lima, afirmou que o acidente “foi a gota que faltava para
que a sociedade se mobilizasse e exigisse uma discussão
mais aprofundada sobre a atuação da Bayer no Estado do Rio,
a começar pela sua localização”. Segundo ele, a empresa
chegou à Belford Roxo há cerca de 50 anos e com o crescimento
da cidade atualmente está localizada em uma área urbana,
cercada de residências e de todo tipo de estabelecimento.
“É por essa e outras razões que na representação junto ao
Ministério Público e à Procuradoria, o Fórum defende a transferência
das instalações da empresa. É inadmissível que a produção
de agrotóxicos e outras substâncias altamente tóxicas, além
da incineração de resíduos industriais, estejam convivendo
lado a lado com moradores que se queixam permanentemente
de problemas de saúde em decorrência dessas atividades potencialmente
poluidoras”, reforça o ambientalista.
O presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, deputado
estadual André do PV, concorda com o teor da ação proposta
pelo Fórum. “Acidentes piores podem acontecer a qualquer
momento em Belford Roxo, principalmente porque os órgãos
ambientais não têm condições estruturais para fazer um trabalho
de fiscalização rigoroso em todas as instalações da empresa.
Acho que o momento é oportuno à discussão sobre a necessidade
de transferência da planta da Bayer. Não proponho acabar
com as atividades da empresa no Estado, mas considero que
as suas instalações estão hoje em uma área inadequada”,
reitera o parlamentar a defesa que já havia feito no artigo
“Uma calamidade ambiental ao nosso lado”, publicado na edição
do Jornal do Brasil de 28 de janeiro último.
A Comissão de Meio Ambiente da Alerj, segundo André do PV,
pretende convocar representantes da Bayer para depor na
CPI dos Crimes Ambientais, não só pelo acidente, mas também
pelas reclamações de moradores em relação aos problemas
ambientais e de saúde que seriam decorrentes das atividades
da empresa em Belford Roxo. Segundo o parlamentar, “se forem
feitos exames nas comunidades devem aparecer problemas causados
pela poluição industrial”. A representação do Fórum solicita
exatamente que seja feito um levantamento epidemiológico
das comunidades que estão mais próximas às instalações da
Bayer. A sugestão dada no documento foi de que a Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz), pela sua reconhecida capacidade
em questões de saúde pública, seja responsável por essa
investigação. No acidente ocorrido nas instalações da Bayer
ficaram feridos três funcionários que precisaram ser hospitalizados.
Todos eles tiveram alta, entre os dias 24 de janeiro e 18
de fevereiro, segundo informações da empresa.
A
palavra do MP
O promotor Marcus Leal, da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela
Coletiva de Duque de Caxias, recebe nesta sexta-feira advogados
da Bayer que responderã o pessoalmente ao pedido de informações
sobre a explosão ocorrida em janeiro e sobre as medidas
de prevenção adotadas pela empresa. Responsável pela abertura
do inquérito que está apurando as causas e as conseqüências
do acidente, o promotor afirmou que não poderia adiantar
qualquer detalhe das investigações, antes de analisar os
dados solicitados aos órgãos ambientais e de ouvir os esclarecimentos
prestados pelos representantes da multinacional instalada
em Belford Roxo. "Tenho informações preliminares de que
não houve vazamento de substância tóxica durante o acidente,
mas uma grande preocupação que tenho é com relação a riscos
futuros nas instalações da empresa. No entanto, preciso
analisar todos os dados solicitados antes de me pronunciar
sobre o caso porque até agora o que eu sei sobre o acidente
foi o que já saiu na imprensa", afirma. Ele acrescentou
que a abertura do inquérito levou em consideração as informações
sobre a explosão divulgadas pelos meios de comunicação.
Segundo Leal, além dos relatórios sobre o acidente a idéia
também é de analisar o tipo de licenciamento que a empresa
tem para operar em Belford Roxo. Quanto à demanda de transferência
da planta da Bayer encaminhada na representação do Fórum
de Meio Ambiente, o promotor foi cauteloso e voltou a reforçar
que não gostaria de fazer nenhum julgamento prematuro da
questão. Segundo ele, a empresa está atuando na cidade há
cerca de 50 anos e o que pode exigir do empreendimento industrial
é o cumprimento rigoroso da legislação em vigor, a fim de
que as suas atividades sejam compatíveis com o tipo de licenciamento
que possui, e com a garantia de equilíbrio ambiental e da
saúde da população. As queixas dos vizinhos Nascida e criada
em Belford Roxo, a técnica em edificações Maria Regina Inácio,
37, mora em Jardim Anápolis, ao lado das instalações da
Bayer, e diz que sente irritação nos olhos, além de enjôo
e dores de cabeça freqüentes. “Eu não tive como comprovar
até hoje, mas como moro aqui há 37 anos, suponho que tenha
a ver com a poluição gerada pelas instalações que estão
aqui do lado. A minha suspeita é maior porque outros vizinhos
reclamam dos mesmos sintomas,” afirma. Maria Regina queixa-se
da fumaça branca que sopra constantemente de uma chaminé
da fábrica. “Durante o dia essa fumaça deixa todo mundo
com enjôo. À noite a situação piora e o odor fica insuportável.
A gente tem que fechar todas as portas e janelas antes de
anoitecer pra suportar o mau cheiro que vem de lá”, diz
ela, apontando para a chaminé que pode ser vista da sua
calçada. Segundo a técnica em edificações, a população do
entorno, que sempre teve receios em relação à possibilidade
de acidentes nas instalações da Bayer, ficou ainda mais
temerosa depois da explosão recente, que pôde ser ouvida
a 5 quilômetros de distância. “Soubemos da gravidade do
acidente pelos amigos que se informaram pelas notícias que
circularam nos jornais. Faltou comunicação por parte da
empresa para a c omunidade. Aqui a gente lamenta não ter
também nenhum tipo de orientação sobre como agir em caso
de acidentes como esse.
A gente queria saber mais sobre os riscos que envolvem a
produção dessa empresa e sobre os perigos desse produto
que tava no tanque que explodiu, mas ninguém fala nada,
nem os órgãos públicos e nem a própria companhia”, afirma
Maria Regina. O artesão Igor de Oliveira Silva, 34 anos,
é outro morador do Jardim Anápolis que reclama dos impactos
causados pelas atividades da Bayer. Segundo ele, muita gente
dessa comunidade precisa usar óculos escuros para se proteger
da irritação nos olhos provocada pela fumaça. “Quem vê essa
fumaça que sopra durante o dia precisa conhecer a situação
à noite, quando o mau cheiro incomoda muito mais”. Silva
considera que falta mobilização dos moradores de Jardim
Anápolis e de outros bairros próximos à fábrica. Para o
artesão, essa é uma das razões pelas quais as comunidades
não têm acesso a mais informações sobre a atuação da empresa
e sobre os potenciais riscos em decorrência de sua atuação.
A dona de casa Maria do Carmo Barreto dos Santos, 36 anos,
é outra moradora do Jardim Anápolis que se queixa da falta
de diálogo da empresa com a comunidade e dos problemas de
saúde, que segundo ela, podem ter relação direta com as
atividades da Bayer. “Há nove anos eu moro nesta rua e não
vejo a situação melhorar por aqui. A gente está ao lado
de uma grande empresa e olha a situação da nossa rua”, diz
apontando para a falta de calçamento, de arborização e de
outros cuidados urbanísticos no local. Rua ao lado do muro
da Bayer: falta infra-estrutura. Ao fundo, a chaminé solta
a "fumaça branca" “Como se não bastassem todos os problemas
que temos aqui, acidentes como o que ocorreu na Bayer aumentam
ainda mais a desvalorização dos nossos imóveis. Ninguém
quer comprar uma casa do lado da fábrica, muito menos depois
de sentir na pele os problemas que temos aqui. Um vizinho
tentou vender a casa dele recentement e e não conseguiu.
A minha filha sofre com uma alergia respiratória freqüente,
sem contar a dor de cabeça, a irritação nas vistas e o mal-estar
que todo mundo também sente por aqui”, reclama Maria do
Carmo. “Está mais do que na hora de sermos submetidos a
exames médicos para avaliar se estamos sofrendo impacto
da poluição industrial. Eu queria ser a primeira a ter a
saúde avaliada”, completa.
Morador de Belford Roxo há 24 anos, o eletricitário aposentado
Antônio Jorge Machado Soares, contou que tem medo de novos
acidentes. Ao tomar conhecimento da representação no Ministério
Público e na Procuradoria da República, pedindo a transferência
da planta da Bayer e o levantamento epidemiológico das comunidades,
ele ressaltou: “Eu apoio essa mobilização. Essa empresa
não poderia mais estar instalada aqui no meio da cidade.
A gente reconhece que a Bayer traz progresso, dá emprego
e paga impostos, mas também traz danos e causa preocupação
na população que morre de medo de acidente g rave.” Auditoria
independente “Eu bato na tecla de que esse tipo de acidente
além de um crime ambiental deve ser considerado um crime
corporativo. Quem nos garante que o meio ambiente e a saúde
humana não foram afetados com a explosão?”, questiona o
ambientalista Sérgio Ricardo.
Esses argumentos constam na representação que encaminhou
ao Ministério Público e à Procuradoria da República, na
qual também solicitou auditoria independente nas instalações
da Bayer, em Belford Roxo. “Tenho certeza que se isso for
feito vai ser determinado o fechamento das instalações dessa
empresa que no seu país-sede (a Alemanha) não teria permissão
pra funcionar. Tecnologia de incineração em centro urbano
não é adotada em nenhum país desenvolvido. Se pode no Brasil,
isso já evidencia uma situação de racismo ambiental, o que
garante aos grandes grupos econômicos explorar atividades
altamente poluidoras em regiões periféricas, onde a população
é formada por maioria negra, pobre, com baixos nívei s de
escolaridade e de mobilização social”, acrescenta.
O ambientalista Davson das Virgens Bragança, morador de
Belford Roxo, também se diz preocupado com o risco de acidentes
nas instalações da Bayer e pretende contribuir na organização
do abaixo-assinado que reforçará o pedido de auditoria independente
nas instalações da empresa, além de levantamento epidemiológico
das comunidades. “Essa empresa não deveria estar mais funcionando
aqui, em pleno centro urbano de Belford Roxo”, ressalta.
Davson e Sérgio Ricardo, luta pela transferência das instalações.
A
Bayer se defende
O diretor de Meio Ambiente da Bayer SA, Enio Viterbo, respondeu
as questões levantadas pela reportagem, durante entrevista
com moradores de Belford Roxo, e com o coordenador do Fórum
de Meio Ambiente e Qualidade de Vida da Baía de Sepetiba
e da Zona Oeste, Sérgio Ricardo de Lima.
Até o fechamento da reportagem, segundo o executivo, a empresa
não foi comunicada oficialmente da representação encaminhada
pela organização ao Ministério Público Estadual e à Procuradoria
da República no RJ. Ele ressaltou que a Bayer mantém uma
relação de diálogo com as comunidades, tem pautado a sua
atuação pelo respeito às leis em vigor e desconhece problemas
ambientais ou de saúde pública decorrentes das suas atividades
na Baixada Fluminense.