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Água:
Esgotabilidade, Responsabilidade e Sustentabilidade
Por Marta Regina Lopes Tocchetto, professora da Universidade
Federal de Santa Maria (RS), e Lauro Charlet Pereira, pesquisador
da Embrapa Meio Ambiente.
Inúmeras são as previsões relativas à escassez de água,
em conseqüência da desconsideração da sua esgotabilidade.
A água é um dos recursos naturais fundamentais para as diferentes
atividades humanas e para a vida, de uma forma geral. Apesar
de muitos entenderem que o ciclo natural da água promove
a sua recuperação, na prática não é o que se observa, tendo
em vista os inúmeros fatores que interferem neste ciclo
hidrológico. A falta de água traz como efeito a seca, que
possui diversas faces dependendo da ótica da observação.
A mais comum é a seca climatológica, que desencadeia o processo,
seguida da seca das terras e a conseqüente seca social,
com os respectivos danos e mazelas causados. A seca hidrológica
representa a falta de água nos reservatórios e mananciais.
O Brasil detém 13% das reservas de água doce do Planeta,
que são de apenas 3%. Esta visão de abundância, aliada à
grande dimensão continental do País, favoreceu o desenvolvimento
de uma consciência de inesgotabilidade, isto é, um consumo
distante dos princípios de sustentabilidade [1] e sem preocupação
com a escassez. A elevada taxa de desperdício de água no
Brasil, 70%, comprova essa despreocupação. A oferta gratuita
de recursos naturais pela natureza e a crença de sua capacidade
ilimitada de recuperação frente às ações exploratórias,
contribuiu para essa postura descomprometida com a proteção
e o equilíbrio ecológico. Cotidianamente, diversos são os
exemplos de desperdício e despreocupação, como escovar os
dentes com a permanência da torneira aberta; lavagem de
ruas e calçadas com jatos d'água ("vassoura hidráulica"),
lavagem de veículos com água tratada, o uso de válvulas
sob pressão nas descargas dos vasos sanitários; o despejo
das águas servidas de banho e lavagens em geral, sem a preocupação
com a racionalização de consumo e/ou reuso. Por outro lado,
a indústria tem percebido, cada vez mais, a indissociabilidade
entre a conservação dos recursos naturais e a ecoeficiência
ambiental. É preciso que esta inter-relação seja, assimilada
e internalizada na prática diária de cada cidadão.
Mesmo em regiões brasileiras, onde as reservas hídricas
geralmente atendem as necessidades de uso, em algumas épocas
do ano são relativamente comuns os períodos de escassez,
em atividades produtivas, devido às condições climáticas
adversas e/ou aumento de demanda em atividades produtivas,
como o caso da cultura do arroz, no verão, no Sul do Brasil.
Buscando equilibrar as necessidades para o abastecimento
das populações e para a atividade produtiva e, ainda, minimizar
as conseqüências sociais da seca, estratégias de racionalização
e de racionamento são estabelecidas. Esta situação gera
um nítido conflito entre os usuários e os usos da água.
A solução para este tipo de conflito está na gestão deste
recurso, que inicia-se pela racionalização de consumo, acrescida
do estabelecimento de estratégias de reuso, tanto nas práticas
agrícolas quanto nas atividades cotidianas residenciais,
comerciais e industriais.
Estima-se que atualmente, no mundo, 1,7 milhão de pessoas
sofrem com a escassez de água. Esta dificuldade também pode
estar associada a fatores qualitativos, ocasionados, por
exemplo, pela disposição inadequada de resíduos sólidos,
comumente chamado lixo. O comprometimento da qualidade da
água pode inviabilizar o uso ou tornar impraticável o tratamento,
tanto em termos técnicos quanto financeiros. Diversas são
as substâncias tóxicas geradas nas diferentes atividades
humanas. Nas práticas agrícolas, por exemplo, o uso sem
controle de defensivos químicos pode representar um grande
perigo ao meio ambiente, aos ecossistemas e à saúde humana.
No nosso dia-a-dia também geramos toneladas de resíduos
tóxicos, a partir de diversos produtos comprados livremente
e descartados sem controle, como lâmpadas, pilhas, medicamentos,
inseticidas, tintas, produtos de limpeza, combustíveis,
equipamentos eletrônicos, dentre outros, que muitas vezes
vão parar em lixões nos arredores das grandes cidades, sem
a menor preocupação com os efeitos dessa poluição nos mananciais
de água, solo e atmosfera.
O meio ambiente é formado, dentro de uma visão simplificada,
pelo solo, água e ar. Estes meios interagem sinergicamente
entre si, significando que o resíduo descartado no solo,
por exemplo, mais dia menos dia irá contaminar as reservas
de água e o ar. Assim como, a decomposição dos resíduos
descartados nos rios, originando substâncias tóxicas, pode
atingir outros locais distantes da fonte poluidora, ampliando
assim os danos da contaminação para o meio ambiente.
A relação do homem com o meio ambiente, baseada no indesejável
tripé do descomprometimento, inesgotabilidade e irresponsabilidade,
poderá consumar as previsões mais catastróficas quanto a
escassez dos recursos naturais, sobretudo da água, inviabilizando
dentro de poucos anos, a vida na Terra. Portanto, é fundamental
a substituição por uma visão fundamentada nos princípios
da sustentabilidade, racionalização e responsabilidade,
dentro da qual, somos parte integrante do meio ambiente
e, responsáveis pela proteção e pela elevação da qualidade
de vida no Planeta.
[1] Consumo Sustentável quer dizer saber usar os recursos
naturais para satisfazer as nossas necessidades, sem comprometer
as necessidades e aspirações das gerações futuras.
Marta
Regina Lopes Tocchetto
Doutora em Engenharia - UFRGS (RS),
é professora da Universidade Federal de Santa Maria (RS)
E-mail: marta@tocchetto.com