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ALIMENTOS
ORGÂNICOS: MELHOR PARA VIDA
Por Alberto
Feiden, Denise Justino da Silva
As primeiras experiências com modelos alternativos de agricultura
ocorreram no início do século passado, sendo que o movimento
passou a ganhar força a partir dos anos 60/70, com o nome
de Agricultura Alternativa. Este movimento era a soma de
diversos grupos distintos, com base em grande diversidade
de conceitos e filosofias, todos eles tendo como princípio
a busca de uma agricultura ecologicamente sustentável, economicamente
viável, socialmente justa, culturalmente adaptada e tecnicamente
apropriada.
A partir dos anos 80 e 90, o mercado de alimentos orgânicos
passou a se expandir à razão de 30 a 50% ao ano, atingindo
atualmente um valor em torno de US$ 40 bilhões. As causas
para este aumento são, por um lado do aumento da consciência
ecológica a nível mundial, materializada na Conferência
das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD), mais conhecida como Eco 92, e por outro devido
a diversos problemas de contaminação de alimentos ocorridos
na Europa. Entre estes, a contaminação do solo e alimentos
pelas nuvens de radiação decorrente do acidente nuclear
de Chernobil em 1986; a doença da "Vaca Louca" (Encefalopatia
Bovina Espongiforme, BSE), a partir de 1996 na Inglaterra;
a contaminação de leite por dioxina na Alemanha, França
e Holanda em 1998; a contaminação generalizada dos alimentos
por agrotóxicos. Estes acidentes causaram verdadeiros pânicos
alimentares, levando os consumidores a procurar alimentos
mais seguros.
Alimentos orgânicos são alimentos produzidos a partir de
um sistema de produção que não se reduz a uma única cultura,
mas leva em conta o conjunto das explorações da unidade
produtiva, as interações entre si e com o ambiente do entorno.
É baseado no enfoque sistêmico, onde cada cultura ou exploração
constitui um subsistema dentro de um sistema maior que é
a propriedade, que por sua vez é um subsistema incluído
dentro de um sistema maior, como a comunidade ou a microbacia.
Na produção orgânica se privilegia a conservação ambiental
como um dos componentes da produção, alem de fomentar e
destacar a biodiversidade, os ciclos biológicos e a atividade
biológica do solo
Não é permitida a utilização de agrotóxicos tais como inseticidas,
fungicidas, herbicidas, nem de antibióticos, hormônios e
aditivos artificiais, ou de organismos geneticamente modificados
(OGMs ou transgênicos) e a utilização de radiações ionizantes.
Os controles de organismos que podem se tornar pragas ou
doenças são manejados através de controle ambiental, práticas
culturais e, eventualmente em casos de desequilíbrios extremos,
utilizam-se pontualmente produtos de baixo impacto toxicológico.
Neste sistema de produção se procura maximizar a recirculação
dos nutrientes e da matéria orgânica. Priorizam-se o uso
de recursos naturais renováveis, principalmente os localmente
disponíveis. Procura-se utilizar eficientemente a energia
solar e os processos biológicos para diminuir a dependência
por recursos não renováveis
Visando incentivar o desenvolvimento deste sistema de produção,
o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, realizou
no período de 23 a 30 de junho, em todo território nacional,
a II Semana Nacional dos Alimentos Orgânicos. No Mato Grosso
do Sul, a semana foi organizada pela Comissão Estadual de
Produção Orgânica (CEPOrg-MS) e em Corumbá foi Coordenada
pela Embrapa Pantanal, Secretaria Municipal de Pecuária
e Agricultura, Idaterra, UFMS e UCBD. Esta semana teve como
objetivo o esclarecimento da sociedade em geral, e, mais
especificamente, o consumidor urbano, sobre o que é produto
orgânico e a importância de seu consumo.
Esta campanha visou, entre outras coisas, trabalhar a idéia
do consumo responsável, que subentende um consumidor que
considere, na hora de decidir pelos produtos que vai comprar,
questões relacionadas à saúde humana, ao meio ambiente e
a aspectos sociais, relacionados ao processo produtivo.
A concentração cada vez maior da população nas áreas urbanas
aumenta o distanciamento entre quem consome e quem produz
os produtos agropecuários. Esse distanciamento dificulta
que o consumidor urbano avalie a sua influência sobre o
que e como se produz no campo.
Isto fica bastante evidenciado pelo forte aumento da demanda
de certificações relacionadas a aspectos de saúde, ambientais
e sociais, que vem acontecendo principalmente nos países
mais desenvolvidos. Esse aumento é proporcional ao crescimento
da consciência dos consumidores que nesses países possuem
maiores níveis de escolaridade e de acesso à informação
Embora não haja dados oficiais sobre a agricultura orgânica
no Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento
estima que área envolvida com produção orgânica chega a
8,6 milhões de hectares, incluindo o extrativismo sustentável,
e envolvendo cerca de 20.000 agricultores. Já segundo o
Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), 500
mil hectares são cultivados com produtos orgânicos (excluído
o extrativismo), sendo que o mercado brasileiro estimado
entre de US$ 150 milhões a US$ 300 milhões ao ano, dos quais
entre US$ 100 milhões e US$ 110 milhões, destinados ao mercado
externo.
No Mato Grosso do Sul, a produção orgânica começou a ter
impulso mais organizado a partir do Primeiro Seminário de
Agroecologia no Mato Grosso do Sul, realizado em 2002, e
que permitiu a união de esforços dos diferentes atores que
atuavam de forma isolada no estado. Atualmente, existe um
pólo de produção orgânica se consolidando na região da Grande
Dourados, englobando os municípios de Dourados, Glória de
Dourados, Ivinhema, Nova Andradina, Rio Brilhante, Caarapó,
Douradina, Itaporã e Juti. Outro pólo está iniciando no
entorno da capital Campo Grande, principalmente em função
da demanda de produtos orgânicos da capital. Além dos dois
pólos, algumas iniciativas mais isoladas ocorrem em outros
municípios do estado, enfrentando dificuldades devido ao
seu isolamento.
Na região de Corumbá, ainda não existe produção orgânica
certificada, no entanto como é uma região ecologicamente
sensível, o sistema de produção orgânica é altamente indicado
para esta situação. Além disso, existe certa facilidade
para a conversão dos sistemas de produção existentes para
o sistema de produção orgânica já que na maioria dos casos,
não se usam intensivamente os insumos químicos que são proibidos
nos sistemas orgânicos. Como os índices de produtividade
regionais são relativamente baixos, também não haverá grande
redução de produtividade das explorações durante a transição,
o que costuma acontecer temporariamente nos sistemas de
alta produtividade, dependentes de insumos químicos.
Alberto Feiden
- feiden@cpap.embrapa.br
É pesquisador, Engenheiro Agrônomo.
Denise Justino da Silva - Denise@cpap.embrapa.br
É TNS, Jornalista.
Ambos trabalham na Área de Comunicação e Negócios da Embrapa
Pantanal.