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Conservação
do Patrimônio Genético, Cultural e Modelo Pecuário
O rebanho de gado, que deu origem ao Pantaneiro, foi trazido
da Península Ibérica para o Brasil, pelos Portugueses e
Espanhóis, ainda na época do descobrimento, com a finalidade
de fornecimento de alimento para a comunidade de colonos.
Assim, quase sem interferência humana, o gado prosperou,
adaptando-se aos diferentes ecossistemas desse país. A pressão
da seleção natural por várias gerações ocasionou mudanças
de tamanho, de biótipo e de temperamento, e acabou por estabelecer
as diferentes raças naturalizadas brasileiras, incluindo
o Pantaneiro, também conhecido como Cuiabano ou Tucura,
que são animais reconhecidamente resistentes às condições
ambientais e pouco exigentes.
Devido à necessidade de aumento de produção de alimentos
e, por conseguinte da produtividade dos animais, vários
países decidiram estabelecer extensos programas de melhoramento
genético das raças locais, consideradas menos produtivas.
De maneira geral, por meio de cruzamento as raças naturalizadas
foram absorvidas pela raça melhorada, considerada de maior
valor genético. Assim aconteceu com os animais da raça Pantaneiro,
no qual foi estabelecido um processo de cruzamento absorvente
a partir do início do século XX, em que houve introdução
de genes zebuínos, especialmente da raça Nelore.
Atualmente existem apenas dois núcleos de conservação "in
situ" do bovino Pantaneiro, sendo compostos de aproximadamente
300 indivíduos, localizados nos municípios de Corumbá-MS
e de Poconé-MT. A Embrapa Pantanal, em parceria com outros
centros de pesquisa e Universidades, dedica-se, desde 1984,
a estudar características genéticas, produtivas, reprodutivas
e sanitárias dessa raça.
O núcleo de conservação da Embrapa Pantanal é mantido na
fazenda Nhumirim (Pantanal da Nhecolândia) e possui o objetivo
de manter a variabilidade genética da raça, sendo os animais
do núcleo manejados de forma a garantir a preservação do
patrimônio genético. Também é utilizado em projetos que
buscam agregar valor ao sistema de produção local, por meio
de aumento na produtividade do rebanho e do desenvolvimento
de manejo sustentável para a região do Pantanal.
Atualmente três principais aspectos da região do Pantanal
favorecem a utilização do Bovino Pantaneiro,
1) o potencial turístico da região do Pantanal é inegável,
e o Tucura é um elemento cultural importante e pouco explorado
por este segmento produtivo. Ele faz parte da história da
colonização e do desenvolvimento de uma atividade representativa
do homem pantaneiro. A idéia dos empreendimentos de turismo
rural tornarem-se novos núcleos de conservação viabiliza
projetos que agregam valores produtivos, culturais e ecológicos,
proporcionando ao turista a oportunidade de conhecer e saborear
um pouco mais da nossa história;
2) as perspectivas futuras da pecuária bovina apontam para
a incorporação de variabilidade genética ao rebanho comercial,
que atendam, principalmente, às características de adaptabilidade
ao ambiente e de resistência a doenças. Os bovinos Pantaneiros
parecem adequados também como opção na criação de "raças
compostas" adaptadas às condições adversas presentes no
ambiente da região pantaneira; e
3) a carne bovina é considerada um produto com baixo valor
agregado e sem diferenciação, o que tem condicionado os
agentes da cadeia produtiva a competir exclusivamente por
preço. Como conseqüência, o produto chega ao consumidor
com baixa qualidade, oriundo de um processo produtivo falho
no controle nas diferentes etapas. Por outro lado, nichos
de mercado, para produtos oriundos de carne de qualidade,
se desenvolvem onde consumidores exigem preferencialmente,
produtos que atendam a procedimentos éticos, sanitários,
bem-estar animal, preservação ambiental e desenvolvimento
social.
Portanto, a utilização do bovino Pantaneiro em sistemas
de produção da região passa por uma estratégia econômica
que estimule os pecuaristas a incorporarem o bovino Pantaneiro,
mostrando as alternativas para a conservação da raça, por
meio da implantação de certificação de produtos por Denominação
de Origem Protegida (DOP).
DOP é um "selo" dado a um produto cuja produção, transformação
e elaboração ocorrem em uma área geográfica delimitada com
um controle de todas as etapas de produção reconhecidos
e verificados. Desta forma é possível incentivar a produção
pecuária em determinadas regiões, proteger os nomes de produtos
contra imitações e fornecer ao consumidor informações relativas
às características específicas dos produtos.
Esse tipo de modelo pecuário já é adotado em alguns países
da Europa, que incentivam a criação de raças nativas como
alternativa comercial em áreas de preservação e de propriedades
rurais tradicionais, que são valorizadas pela iniciativa
de preservação do patrimônio genético e cultural de seu
país.
O bovino Pantaneiro, por ser uma raça adaptada às condições
de ambientes rústicos, é uma alternativa para o desenvolvimento
de sistemas de produção sustentáveis para geração de renda,
em populações próximas a áreas de conservação, onde a bovinocultura,
com a utilização das raças naturalizadas, seria uma prática
segura. Pode ser uma opção na busca de sistemas de produção
sustentáveis, associando viabilidade econômica e lucratividade
com preservação ambiental e contribuição para melhorar a
qualidade de vida.
Raquel
Soares Juliano
Doutora em Ciência Animal e médica veterinária
raquel@cpap.embrapa.br
Urbano
Gomes Pinto de Abreu
Doutor em Zootecnia e médico veterinário
urbano@cpap.embrapa.br
Sandra
Aparecida Santos
Doutora em Produção e Nutrição
Animal e pesquisadora da Embrapa Pantanal
sasantos@cpap.embrapa.br