AGENDA
AMBIENTAL Eventos e etc...
Marque presença aqui
LEIS
DA VIDA Crimes ecológicos
Entenda mais sobre isso
PARTICIPAÇÃO Seja nosso colaborador
Publique seus artigos aqui
FALE
CONOSCO
Consciência
e liberdade: aquisição de poder
Por Cristhiane Amâncio,
é pesquisadora da Embrapa Pantanal, mestre em educação
ambiental e doutoranda em ciências sociais com ênfase em
desenvolvimento rural pelo CPDA/UFRRJ.
O termo empoderamento tem sido amplamente discutido e utilizado
para explicitar diversas formas de intervenção e/ou organização
de grupos da sociedade civil. Entendemos empoderamento como
estratégias de organização da sociedade civil menos favorecida
de informação e serviços. Porém, não é uma forma de organização
simplista, pois envolve diferentes tipos de instituições
como o Estado, o mercado e a própria sociedade com suas
instituições internas. De acordo com a equipe da Embrapa
Pantanal "não há ação empoderante neutra". Ela sempre tem
um ponto de partida que é discutir as relações de poder.
É trabalhar a faculdade crítica (consciência), a autoconfiança
dos sujeitos em grupo, para que estes se tornem agentes
da sociedade e passem a exercer sua condição plena de cidadania,
bem como interferir nas relações com o Estado e com o mercado,
criando novas demandas inclusivas de relações onde antes
estes grupos eram excluídos.
Ao longo de nossos estudos observamos que há dois grandes
tipos de intervenção em comunidades. Uma chamada tutorial
e a outra denominada educacional/participativa¹, a qual
estão atreladas diretamente à constituição da autoconfiança
e na superação da cultura do silêncio pregada por Paulo
Freire. Na cultura do silêncio os indivíduos dependentes
ou dominados acham-se semimudos ou mudos, ou seja, proibidos
de participarem criativamente na transformação da sociedade
e, por conseguinte, proibidos de ser. Ela é o resultado
das relações estruturais de dependência e que acarreta em
uma forma especial de consciência denominada de semi-intransitiva.
Para Freire, neste nível de quase imersão, os indivíduos
não compreendem a razão de ser dos próprios fatos. Assim,
a explicação para os problemas se encontra sempre fora da
realidade. Neste contexto, uma forma de romper com formas
antigas de relação de dependência é conhecida como conscientização.
Na abordagem participativa, o agente externo (interventor)
assume um papel educativo que visa identificar grupos com
interesses comuns, orientar a comunidade na identificação
dos problemas e promover a organização inicial do grupo
que, por conseguinte tem um papel totalmente ativo, diagnosticando
e estabelecendo meios para solucionar os problemas bem como
suas causas.
Ela é chamada de educacional, pois possibilita um processo
de aprendizagem tanto para o agente externo quanto para
o grupo. A abordagem utiliza diferentes métodos para estimular
a autoconfiança e desenvolver a faculdade crítica, ou que
Paulo Freire chama de "percepção estrutural". Este tipo
de abordagem tem seu diferencial na forma como são conduzidos
os processos de intervenção. A atitude do interventor em
relação ao grupo passa a ser desafiadora para o mesmo, já
que não terá uma postura tutorial pré-estabelecida.
De acordo com quem origina o processo de intervenção e planejamento,
estabelece seus objetivos, define suas prioridades e finalmente,
executa todos os passos é que podemos definir se este processo
foi participativo ou não e se contribuirá de fato para modificar
as relações de poder.
Dentro desta concepção de abordagem educacional/participativa,
temos a experiência do Reflect-ação que é uma nova abordagem
que trabalha a alfabetização de adultos onde, de forma inovadora,
reúne as concepções Freireanas de educação e alfabetização
com as ferramentas do Diagnóstico Rural Participativo (DRP)
de Chambers.
No programa "Reflect" não são utilizados livros didáticos
e nem livros de leitura para a alfabetização, a não ser
os manuais para os facilitadores da alfabetização. Cada
círculo desenvolverá seu material didático através das técnicas
de DRP, o que torna mais motivador a iniciativa de aprender
a ler palavras e o mundo e aprender a escrita principalmente
de suas vidas. As pessoas se sentem proprietárias e sujeitos
da realidade diagnosticada o que leva a uma reflexão maior
da práxis² adotada no dia a dia.
Ao desenvolver uma "pedagogia do oprimido", Paulo Freire
provou que a forma de perceber o mundo que os leva a opressão
não se dá de maneira fechada sem saída e sim como uma situação
limitante que impõe desafios como a capacidade de transformar
essa realidade; a isto denominou "conscientização". Para
que isso de fato aconteça, o processo de comunicação entre
professor e alunos torna-se fundamental, a necessidade de
diálogo é constante para poder preconizar a síntese entre
o saber maximizado do professor e o saber do formando.
Esta inovação pedagógica de abordagem compõe a raiz da abordagem
"Reflect". A utilização desta abordagem permite que possamos
analisar não só do ponto de vista de práticas pedagógicas
em comunidades marginalizadas como também atividades de
empoderamento e desenvolvimento.
_____________________________________
¹ Para abordarmos tal assunto trazemos contribuição de alguns
clássicos como Alencar que faz uma análise sobre a teoria
do "counterdevelopment" de Galtung. Esta teoria "considera
que a superação desses mecanismos (opressão) ocorrerá quando
os segmentos social e economicamente marginalizados forem
capazes de exercer influêcias no processo de desenvolvimento.
Assim, participação é considerada como um processo de aquisição
de poder" (Alencar, 1990). ALENCAR, E. Intervenção tutorial
ou participativa: dois enfoques da extensão rural. Cadernos
de Administração Rural, Lavras, 2(1): 23-24, jan./jun. 1990.
² Práxis não significa prática. A prática é o conjunto de
ações que desempenhamos na vida e a práxis é o processo
através do qual desenvolvemos nossa consciência e por conseqüência
nossa relação com a prática. A práxis só é possível por
meio da relação entre nossa reflexão crítica sobre a prática
e a conversão em ações mais conscientes e renovadas. A isso
temos a máxima Freireana de compor um círculo virtuoso de
prática - teoria - prática ou ação - reflexão.
Cristhiane
Amâncio
É pesquisadora da Embrapa Pantanal, mestre em educação
ambiental e doutoranda em ciências sociais com ênfase em
desenvolvimento rural pelo CPDA/UFRRJ.
E-mail: camancio@cpap.embrapa.br