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Por
um consumo mais responsável
Sofia Branco
O preço das matérias-primas exportadas do Sul para o Norte
não pára de baixar, enquanto o preço dos produtos importados
do Norte para o Sul não cessa de aumentar. A constatação
desta fractura económica entre os dois hemisférios está
na origem de uma abordagem alternativa às trocas globais:
o comércio justo.
O comércio justo procura melhorar as condições de vida e
de trabalho dos produtores, tendo como linhas de orientação
a promoção dos direitos humanos, a igualdade de género,
a protecção do ambiente e o desenvolvimento sustentado.
Simultaneamente, e através de campanhas de informação e
sensibilização, procura alertar os consumidores para a necessidade
de consumirem de forma responsável, ou seja, tendo em atenção
o circuito que está por trás dos produtos que levam para
casa.
O conceito só foi introduzido em Portugal em 1998, através
do Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral (CIDAC),
onde actualmente tem sede provisória a Coordenação Portuguesa
de Comércio Justo (CPCJ), criada em 2002. Hoje, esta plataforma
reúne já onze associações sem fins lucrativos, cooperativas
de consumo ou organizações não governamentais para o desenvolvimento,
que têm em comum o respeito por uma carta de princípios
e o pagamento de uma quota anual de 150 euros. A ideia foi
"construir um movimento a nível nacional" e pôr as várias
associações ligadas ao comércio justo a trabalharem de forma
"coerente e coordenada", explicou ao PÚBLICO Stéphane Laurent,
secretário da direcção da CPCJ.
O grande objectivo da plataforma para o próximo ano é tentar
convencer as autoridades públicas da necessidade de "incluírem
cláusulas sociais nos seus cadernos de encargos". Até hoje,
apenas o Instituto Português da Cooperação consumia produtos
de comércio justo por opção política. Consumia, porque com
a fusão e criação de um outro organismo, deixou de o fazer,
contou Laurent, denunciando a "pouca sensibilidade das autoridades".
Mas há excepções. Por exemplo, refere Laurent, a autarquia
de Almada trabalha em permanência com a associação Mó de
Vida e só coloca produtos de comércio justo nos seus serviços
de catering. Por outro lado, "a sensibilidade dos consumidores
está a aumentar", acredita Laurent, realçando que "há um
público fiel ao comércio justo, os chamados consumidores
responsáveis".
Criar relações privilegiadas com os países oficiais de língua
portuguesa, que "estão praticamente ausentes do circuito
do comércio justo" é outro dos objectivos da CPCJ, bem como
produzir materiais específicos sobre consumo ético e responsável
para serem distribuídos através de associações de consumidores.
A expressão mais visível deste movimento são as chamadas
Lojas do Mundo, onde se pode adquirir desde alimentos a
artesanato, sendo que todos os produtos respeitam os princípios
do comércio justo e são comprados às importadoras ou directamente
aos produtores, tentando ao máximo eliminar as instâncias
intermediárias. Simultaneamente, estes espaços têm o dever,
segundo a carta de princípios do comércio justo, de prestar
informação sobre o movimento. Actualmente, existem doze
lojas - duas no Porto (geridas pela associação Reviravolta),
Barcelos (Alternativa) e Coimbra (Acção para a Justiça e
Paz e PLaneta Azul), e uma em Lisboa (Cores do Globo), Amarante
(Aventura Marão Clube), Peniche (Terra Justa), Almada (Mó
de Vida), Faro (ARCA) e Braga (Alternativa).
Além de coordenar o trabalho das associações portuguesas,
a CPCJ também as representa a nível europeu, mais exactamente
na Network of European World Shops.
Sofia
Branco
Mail: info@comerciojusto.pt
Site: www.comerciojusto.pt