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CONTRIBUIÇÕES
DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Por Cristhiane Amâncio
A ciência tradicional, baseada nos moldes cartesianos, tem
encontrado no discurso da educação ambiental, seu ponto
de ruptura paradigmática. Para os educadores ambientais,
o cientista de hoje deve possuir uma postura ética no sentido
real da palavra. O dicionário Aurélio define ética como:
"estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana
suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do
mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de
modo absoluto". Portanto, a ética envolve uma reflexão do
papel do cientista como intelectual na sociedade, questionando
o sentido da produção ou não de uma determinada tecnologia
ou saber científico. Para isso, no centro desta reflexão,
deveria estar o homem como ser que também faz parte da natureza,
bem como suas relações passadas, atuais e futuras com o
ambiente que o cerca. De acordo com a equipe da Embrapa
Pantanal "a concepção de ambiente aqui empregada envolve
fatores sociais, ecológicos, econômicos e culturais".
Ao discutir ética, devemos lembrar que este não é um campo
de conhecimento restrito à elite intelectual e, sim, uma
forma norteadora da conduta das pessoas em seu dia-a-dia.
Então, a discussão sobre a postura ética de um cientista
deve considerar o cotidiano das pessoas e não traçar perfis
éticos somente para a elite científica acadêmica que compõe
o seu universo profissional, isto porque, o que é considerado
ético por determinados cientistas de uma área do conhecimento,
pode não ser considerado ético por outra área, o que demonstra
e afirma a fragmentação do conhecimento científico e o seu
olhar unidimensional disciplinar.
Não podemos deixar de lembrar que o cientista, seja ele
de qual área for, também é um ser social, dotado de interesses,
sentimentos e com seus valores morais pré-concebidos. É
nesta afirmativa que a educação ambiental pode tentar alcançar
seus objetivos. Ao entender o cientista como um ser social
tal qual qualquer outro, sem dividir em degraus a hierarquia
do saber, fica mais fácil atuar. O cientista, entendendo
o papel que ele tem na sociedade como mais um membro e,
com uma importância diferenciada, talvez entenda que esteja
nas mãos desta "elite científica" o rumo para a mudança
mundial. Tanto o cientista quanto a sociedade civil leiga
poderá passar a compreender que a natureza não diferenciará
em degraus hierárquicos quem sofrerá as possíveis conseqüências
da degradação ambiental. Assim, talvez, ele passe a repensar
seu posicionamento como pesquisador científico e ser social
de forma integrada e sistêmica.
O cientista tem compromisso com a sociedade e, por isso,
tem o dever de prestar contas do seu trabalho. A sociedade
é quem financia, motiva e é uma das bases para o desenvolvimento
de um projeto de pesquisa científica. A sociedade é quem
vai decidir se adotará ou não a tecnologia, ou seu produto
final, seja qual for, gerado pelo pesquisador. Porém, como
fazer, então, que a "massa" tenha o conhecimento necessário
para discernir, avaliar e julgar as questões que envolvem
a ciência, bem como o seu elo com as questões ambientais?
Alguns pesquisadores da filosofia discutem o papel do cientista,
seja ele de que área for, perante a sociedade. Estes dão
ênfase não em um conceito de desenvolvimento sustentável
e sim de sociedades sustentáveis onde os indivíduos, de
posse de informações válidas norteariam as escolhas da instituição
mercado. É a sociedade o ponto de partida, o sistema de
mercado só muda quando as pessoas mudarem e tiverem acesso
a informações claras e diretas. Aí está o papel do cientista.
No papel de informar o público, criar uma opinião pública
capaz de trazer a sociedade subsídios para escolha. Só há
escolha quando há mais de uma opção. O seu conhecimento
científico deveria ser compartilhado preferencialmente com
o público, pois será ele quem irá receber mesmo que de maneira
passiva, os frutos destes trabalhos. Não serão apenas artigos
científicos que se mantêm herméticos em uma elite de minorias
"esclarecidas".
Sob o olhar da educação ambiental não há mais espaço para
uma ciência fragmentada e neutra porque quem faz a ciência
são seres que não são neutros e não vivem isolados de uma
interação social. Então, não há mais o porquê de se entender
a ciência sob este olhar fragmentado. Os cientistas deveriam
pesquisar para que as demais pessoas vivam em harmonia com
o seu ambiente e esta concepção de ambiente deve ser remodelada
também para estas pessoas da ciência. Como já foi descrito
anteriormente, o ambiente não está restrito apenas a valores
ecológicos, ele é mais!
Cristhiane
Amâncio
- camancio@cpap.embrapa.br
Éé pesquisadora da Embrapa Pantanal, mestre em educação
ambiental e doutoranda em ciências sociais com ênfase em
desenvolvimento rural pelo CPDA/UFRRJ.