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O
porquê da educação ambiental?
Por Cristhiane Amâncio
A conservação da qualidade do meio ambiente e, conseqüentemente,
da qualidade de vida tem sido uma preocupação da sociedade
desde há algum tempo. Intensifica-se, com isto, a demanda
por atividades que estimulem o desenvolvimento de uma consciência
ambiental, não só ecológica, do ponto de vista da natureza,
mas também visando às questões social, cultural e econômica
relacionada à existência do homem. Dessa forma, uma suposta
sociedade sustentável pressupõe a crítica às relações sociais
e de produção, tanto ao tipo de valor, como ao uso dos recursos
e produtos da natureza. Segundo a equipe da Embrapa Pantanal,
devemos partir do princípio de que a educação ambiental
é uma proposta que deveria alterar de forma considerável
o modelo tradicional de educação, não sendo necessariamente
uma prática pedagógica voltada para a transmissão de conhecimentos
sobre ecologia no sentido reduzido da palavra.
Seu propósito fundamental é mostrar as correlações econômicas,
políticas, sociais, culturais e ecológicas do mundo, contribuindo,
portanto, para o desenvolvimento de um espírito de responsabilidade
e solidariedade entre os indivíduos e as sociedades.
A modernização agrícola e seu desenvolvimento técnico geraram
o aumento da degradação ambiental, uma aceleração da degradação
do solo por uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes
químicos e até mesmo do emprego de maquinário agrícola sem
o manejo adequado recomendado tecnicamente. Esse conjunto
de fatores tem causado grandes danos aos animais, às plantas,
às águas e ao próprio homem, chegando neste momento crítico
em que tal avanço tecnológico necessita ser repensado de
maneira crítica para garantir inclusive sua própria sustentabilidade.
Apesar de haverem grandes investimentos nas pesquisas ligados
à agropecuária brasileira, o processo de adoção tecnológica
ainda é complexo por diversos motivos que não são o tema
agora. Aumentamos a produtividade em menores áreas, mas
a conservação ambiental ainda nos preocupa.
Existe certo consenso de que a consciência ecológica se
constrói, de um lado, na busca de tecnologias alternativas
visando superar ou restringir os constrangimentos que o
padrão tecnológico coloca ao meio ambiente cotidiano. De
outro lado ela se constrói pelo movimento social em luta.
Pensando no desenvolvimento desta consciência e de uma sociedade
sustentável é possível problematizar sobre o papel da educação
ambiental como instrumento crítico de reflexão do modelo
de desenvolvimento que cada sujeito define como sendo o
seu e o impacto que estas escolhas individuais tem dentro
da coletividade.
O debate sobre a educação ambiental no Brasil é relativamente
recente. Há vários trabalhos sendo realizados e algumas
discussões sobre a elaboração teórica que possa fundamentar
a sua prática. É importante considerar a reflexão sobre
a prática, referindo-me a relação teoria/prática, sem a
qual a teoria pode ir virando blábláblá, e a prática apenas
ativismo. Essa reflexão se torna fundamental para que fujamos
do oportunismo que ronda a temática.
Sabe-se que a educação ambiental surgiu na tentativa de
minimizar e tentar reverter o quadro de degradação ambiental
que se instalou no mundo no último século. Portanto, a educação
ambiental possui um enfoque emergencial e transformador,
já que prega a busca por outra forma de relação do ser humano
com o meio em que está inserido. Esta nova forma de enxergar
a educação, que tem muito dos propósitos e diretrizes da
educação popular pregada por Paulo Freire, ainda causa muitos
conflitos de compreensão aos educadores ambientais. Muitos
ainda a confundem com transmissão de conhecimentos ecológicos,
trazendo para a educação ambiental um enfoque disciplinar
e restrito.
Os raios de ação da educação ambiental vão desde atividades
superficiais (em sua maioria) até chegarem a atividades
mais aprofundadas em seus propósitos. Podemos perceber que
muitas delas não possuem nenhum tipo de vínculo pedagógico,
avaliativo e de assessoria com seu público alvo, sequer
de acompanhamento posterior. Além disso, complementamos
que a educação ambiental é uma forma de educação que exige
a participação efetiva dos cidadãos nas discussões que envolvem
a problemática, tentando estabelecer uma "nova aliança"
entre o homem e a natureza e, acima de tudo, estimular e
fortalecer a participação social. Não seria uma educação
feita em forma de pacotes, que já chegam para a sociedade
prontos e pré-formulados por uma elite intelectual. Ela
seria construída pela própria sociedade ao serem discutidos
os problemas ambientais do micro ao macro ambiente. Não
haveria um único modelo a ser seguido como correto. Essa
participação traria à tona uma reflexão sobre a chamada
ética cidadã, que seria analisada sob diversas vertentes:
a econômica, a política, a cultural, a ambiental e a social.
Podemos subdividir em três grandes espaços de ação da educação
ambiental. São elas: educação ambiental formal (aquela exercida
como atividade escolar dos sistemas oficiais de ensino.
Ela possui conteúdos, metodologias e meios de avaliação
claramente definidos); educação ambiental não-formal (aquela
que ocorre em variados espaços da vida social, com diferentes
componentes, metodologias e formas de ação daquela formal.
É exercida normalmente por Organizações Não-Governamentais
(ONGs), empresas, secretarias de governo, etc.); educação
ambiental informal (é aquela exercida em outros espaços
sociais, sem compromisso com a continuidade. Não se exige,
que defina claramente sua forma de ação, metodologia e avaliação.
Ex: meios de comunicação de massa).
A educação ambiental surge com a finalidade de (re)integrar
o ser humano no complexo ecossistêmico a que está inserido.
Pensar desta maneira, no entanto, requer mudanças, sobretudo
nas diferentes formas de pensar e agir individual e coletivamente.
Bem como refletir sobre qual o tipo de sociedade queremos
considerar como sustentável?
Cristhiane Amâncio
É pesquisadora da Embrapa Pantanal, mestre em educação
ambiental e doutoranda em ciências sociais com ênfase em
desenvolvimento rural pelo CPDA/UFRRJ.