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As
Pespectivas da Psicultura em Mato Grosso do Sul
Emiko Kawakami de Resende
Devido à demanda crescente por consumo de organismos aquáticos,
particularmente de peixes, que não consegue ser atendida
pela pesca extrativa tradicional, a produção de peixes como
atividade zootécnica vem crescendo a cada ano. O grande
guru da administração, Peter Drucker, prognosticou que as
próximas décadas teriam um crescimento acelerado da aqüicultura.
Levantamentos realizados por Borghetti e colaboradores relatam
que em 2001, os oito maiores países produtores aquícolas
foram asiáticos. O maior produtor foi a China que respondeu
por 77,8% da produção mundial, com 34,2 milhões de toneladas
produzidas. A aqüicultura continental foi responsável por
46,4% da receita produzida, enquanto a maricultura, por
36% e a produção aquícola em águas salobras, por 17,5%.
Na América do Sul, o Chile foi o principal produtor, com
631,9 mil toneladas, equivalente a 52,9% da receita total
gerada em 2001. Foram seguidos pelo Brasil, com 210 mil
toneladas e Equador, com 67,9 mil toneladas.
A aqüicultura mundial apresentou na última década, um crescimento
anual médio cinco vezes superior aos apresentados pela bovinocultura,
avicultura e suinocultura, ultrapassando de longe as projeções
traçadas pelos especialistas. O mesmo ocorreu no Brasil,
com valores de crescimento ao redor de 140% nos últimos
cinco anos. Apesar desse ritmo de crescimento, existem grandes
pontos de estrangulamento na sua manutenção a qual é particularmente
crítica para a piscicultura, na medida em que a maioria
é desenvolvida em escala familiar, com baixos níveis de
tecnificação e de produtividade e ausência de uma estrutura
comercial adequada para o escoamento da produção. Não há,
até a presente data, um quadro geral do tamanho dos empreendimentos
aquícolas no Brasil. Entretanto, considerando que a "piscicultura
no Brasil foi considerada como uma atividade complementadora
de renda nas propriedades rurais", é razoável supor que
na maioria dos Estados brasileiros, o tamanho dos empreendimentos
seja de pequena área. Ao menos é verdadeiro para o Paraná,
onde Borghetti e colaboradores encontraram área média de
cultivo de 0,37 hectares por propriedade. Em Mato Grosso
do Sul, levantamentos realizados pela Secretaria Estadual
de Desenvolvimento Agrário, de Produção, da Indústria, do
Comércio e do Turismo e pelo Escritório da Secretaria de
Aqüicultura e Pesca em Mato Grosso do Sul, revelam que mais
de 50% dos empreendimentos piscícolas possuem áreas inferiores
a um hectare, em torno de 0,30 a 0,80 hectares. Existem,
no entanto, seis pisciculturas com áreas inundadas superiores
a 50 hectares, localizadas no eixo sudeste/sul do Estado.
Na atualidade existem ainda grandes entraves para o desenvolvimento
da aqüicultura no Brasil, e certamente também em Mato Grosso
do Sul, que podem ser enumerados em pelo menos quatro níveis:
1-de ordem tecnológica; 2- de ordem ambiental; 3- de transferência
e capacitação e 4- de organização. As questões de natureza
tecnológica passam pela necessidade de domesticação e melhoramento
de espécies nativas chaves para cultivo, de desenvolvimento
de rações adequadas que promovam o máximo de crescimento
com mínimo de resíduos, de controle de doenças, de sistemas
adequados de cultivo e de formas de processamento capazes
de agregar valor ao pescado. Enfocando apenas o aspecto
de melhoramento genético, observa-se que esses programas
efetuados com animais e plantas têm sido o alicerce do desenvolvimento
agropecuário no mundo e particularmente, muito eficiente
no Brasil, como foi a tropicalização da soja. O Brasil,
detentor de 13% das reservas de água doce do mundo, possui
um enorme potencial de desenvolvimento para a aqüicultura,
pois a maior biodiversidade de peixes de água doce encontra-se
no país e pelo menos duas espécies de interesse (pacu e
pintado), em Mato Grosso do Sul, que foi pioneira no desenvolvimento
do cultivo dessas espécies. Embora existam muitas iniciativas
de criação de peixes nativos no país, as mesmas são feitas
baseadas no potencial nativo e quando não, em híbridos interespecíficos
com todos os questionamentos sobre os impactos potenciais
genéticos deletérios sobre os estoques nativos. A experiência
internacional com alguns peixes como a tilápia, o salmão
e as carpas mostram que o melhoramento genético na taxa
de crescimento pode proporcionar ganhos de cerca de 15%
por geração em programas bem conduzidos, ou seja, em 7 gerações
pode-se obter o dobro da taxa de crescimento inicial. No
caso da tilápia, cujo ciclo de vida é curto (pode alcançar
a maturação em seis meses), isto pode ser alcançado em 3,5
anos. O fator interveniente que controla as possibilidades
de ganho é o intervalo de geração, ou seja, o tempo gasto
pelas espécies para alcançar a primeira maturação sexual
que, em peixes brasileiros está entre dois e três anos.
Que programas de melhoramento genético para as espécies
brasileiras existem no Brasil? Até a presente data, nenhum.
As questões de ordem ambiental envolvem uma legislação que
seja ao mesmo tempo capaz de promover a conservação ambiental
e o uso dos recursos naturais para produção. O atendimento
às normas legais é dificultado pela pulverização dos entes
federativos que necessitam ser consultados para a implantação
da atividade. Há uma clara deficiência na transferência
de conhecimentos e tecnologias para o segmento produtivo.
Para tanto, devem-se criar programas de transferência por
meio de capacitação e qualificação profissional aos piscicultores
e membros de sua família e outros interessados no assunto,
enfocando conceitos de viabilidade técnica e econômica dos
empreendimentos; a adoção de programas de produção que levem
a uma maior produtividade com o aproveitamento das potencialidades
regionais, tanto em termos de insumos locais disponíveis
como de infra-estrutura física existente. Nos Estados onde
há uma conjunção de fatores favoráveis, como em Mato Grosso
do Sul, com fontes próximas de reprodutores de espécies
de interesse como pacu e pintado, a disponibilidade de recursos
hídricos e de insumos (ingredientes de rações) e frigoríficos
instalados, é necessário direcionar esforços para um programa
de governo que seja capaz de solucionar os gargalos identificados.
Ao se pensar na aqüicultura como uma opção de desenvolvimento
para pequenos produtores, o que é possível, há a necessidade
de incentivar formas de organização como o associativismo
ou cooperativismo, para torná-los viáveis do ponto de vista
econômico. Há uma clara necessidade de promover a aproximação
entre os setores da produção e do processamento do pescado.
O I Congresso Brasileiro de Produção de Peixes nativos de
Água Doce e o I Encontro de Piscicultores de Mato Grosso
do Sul, a ser realizado pela Embrapa Agropecuária Oeste
e Embrapa Pantanal, entre os dias 28 a 31 de agosto de 2007,
é um evento orientado no sentido de procurar resolver alguns
dos gargalos identificados, dada as condições excepcionais
de desenvolvimento da atividade em Mato Grosso do Sul. Estará
sendo traçado um panorama da atividade aqüicola e da pesquisa
no Brasil, com a participação do Ministro da Secretaria
Especial de Aqüicultura e Pesca e da Dra Elizabeth Urbinati,
docente e pesquisadora da Unesp Jaboticabal. As palestras
específicas abordarão temas de interesse na piscicultura
como boas práticas de manejo, controle de qualidade de água,
produção de peixes em reservatórios, em tanques redes e
de peixes nativos ornamentais. Tecnologias de processamento
e aproveitamento de resíduos de pescado terão ênfase especial
com a participação dos maiores especialistas da área no
Brasil. Nutrição e saúde de espécies nativas, enfermidades
e uso de probióticos, melhoramento genético e larvicultura
serão outros temas objeto de palestras. Ao mesmo tempo,
no I Encontro de Piscicultores de Mato Grosso do Sul, serão
abordados temas de interesse prático para a categoria como
a legislação ambiental para piscicultura, a comercialização,
o fomento e linhas de crédito e assistência técnica.
Emiko
Kawakami de Resende É bióloga,
doutora em ciências e pesquisadora da Embrapa Pantanal,
Corumbá-MS (www.cpap.embrapa.br).
E-mail: emiko@cpap.embrapa.br