
DOMINGO
DA RESSURREIÇÃO
1. Quando, já no fim da última guerra
mundial, Dietrich Bonhoeffer, um Pastor Luterano que morreu
mártir do nazismo, pergunta ao seu interlocutor e amigo,
a quem dirige as suas já célebres “cartas da prisão”,
se será possível pensar “um cristianismo sem religião”,
estava motivado por uma verificação chocante: muitos cristãos
declarados estavam entre os protagonistas das grandes
violências e injustiças, enquanto outros, “sem religião”,
pareciam mais sensíveis ao drama que então se vivia e
mais abertos às exigências da paz e do respeito pela dignidade
do homem. Bonhoeffer teve grande influência na reflexão
teológica das Igrejas cristãs, incluindo a católica, nos
anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Desde uma
religião sem Deus, explicitamente afirmada, proposta pela
corrente chamada da “morte de Deus”, à busca de um “cristianismo
secular”, integrado pelos “homens rectos”, que lutam pela
justiça e pela dignidade do homem, mesmo sem confessarem
a sua fé em Jesus Cristo, até à ousada separação entre
cristianismo e religião, reservando aquele para o âmbito
da intervenção social, que seria a fé dos tempos modernos,
relegando o fenómeno religioso para o âmbito de um intimismo
pessoal, sem impacto significativo na cidade.
Mudou, porventura, a linguagem, mas a problemática de
fundo continua presente na sociedade e na cultura actuais.
Ninguém rejeita, abertamente, a força inspiradora da mensagem
evangélica na sua incidência social, mas a fé religiosa
tende a ser considerada como um fenómeno interior, legítimo
e que a sociedade deve respeitar, mas que pouco tem a
ver com os problemas da cidade. Porque o Estado é laico
e deve ser neutro em matéria religiosa, tende a considerar-se
a sociedade como “a-religiosa” no fundamento dos valores
que prossegue e na inspiração ética das normas por que
se rege.
Ora a festa da Páscoa que celebramos é, para nós cristãos,
a afirmação clara de que Cristo ressuscitado é o fundamento
da verdadeira religião e que as incidências sociais do
Evangelho, enquanto inspiração para a edificação de uma
sociedade mais justa, mais pacífica e pacificadora e mais
respeitadora da dignidade do homem, são exigência e expressão
de uma verdadeira religião. O cristão pratica a sua fé
religiosa, tanto quando celebra a liturgia como quando
procura ajudar os seus irmãos ou luta contra as injustiças.
As actividades sociais da Igreja partem de uma exigência
da sua fé e são expressões da religião. Já o Apóstolo
S. Tiago escrevia no século I: “Religião pura e sem mancha
diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos
e as viuvas em aflição e manter-se livre da corrupção
do mundo” (Tg. 1, 27).
2. Toda a religião procura exprimir a relação entre
os homens e Deus e encontrar resposta para questões fundamentais
do ser humano, como afirma o Concílio Vaticano II no Decreto
sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs:
“os homens esperam das diversas religiões a resposta a
enigmas escondidos da condição humana que, ontem como
hoje, perturbam profundamente o coração humano: o que
é o homem? Qual o sentido e a finalidade da vida? O que
é o bem e o que é o pecado? Qual a origem e o sentido
do sofrimento? Qual o caminho para chegar à felicidade?
O que é a morte, o julgamento e a retribuição depois da
morte? O que é, afinal, o mistério inefável que rodeia
a nossa existência, donde procedemos na origem e para
onde tendemos, na busca de um objectivo final?” (Nostra
Aetate, 1).
Cristo ressuscitado é a resposta completa e decisiva para
todas estas questões. A sua ressurreição é a manifestação
da transcendência da divindade, expressa na própria humanidade.
Como diz Pedro no texto dos Actos: “Jesus mandou-nos pregar
ao povo e atestar que Ele foi constituído por Deus juiz
dos vivos e dos mortos” (Act. 10, 42). Na sua ressurreição
Ele venceu o enigma da morte, pois como ensina Paulo aos
Colossenses, na nossa renovação pascal, já ressuscitámos
com Cristo e essa vida nova, agora escondida, há-de manifestar-se
um dia, plenamente, com Ele na Glória (cf. Col. 3, 1-4).
A possibilidade, não apenas de uma proximidade, mas de
uma intimidade vital, entre Deus e o homem, garantida
na ressurreição de Cristo, é resposta cabal a todas as
inquietações do coração humano e a todos os enigmas da
existência.
3. Ao afirmarmos que a ressurreição de Cristo é
o fundamento da verdadeira religião, não negamos o valor
positivo das outras religiões enquanto busca de respostas
àquelas questões fundamentais. Afirmamos apenas que, segundo
a nossa fé, a Páscoa de Jesus nos oferece as mais profundas
respostas que jamais foram dadas ao coração do homem.
Recordemos, a propósito, o já referido Decreto do Concílio
Vaticano II: “A Igreja Católica não rejeita nada do que
é verdadeiro e santo nessas religiões. Considera, com
respeito sincero, essas maneiras de agir e de viver, essas
regras e essas doutrinas, embora diferindo, em muitos
pontos, do que ela própria propõe e ensina, mas que no
entanto deixam transparecer um rasto de verdade que ilumina
todos os homens. No entanto a Igreja anuncia e deve anunciar
sem cessar, Jesus Cristo que é o «caminho, a verdade e
a vida» (Jo. 14, 6) em Quem os homens encontram a plenitude
da vida religiosa e no Qual Deus reconciliou consigo todas
as coisas” (N. Aet. 2).
Fonte: Canção nova
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